Mas estas gurias do Disk Musa são frondosas. Abaixo, poemas inéditos de minha autoria e também dois vídeo-poemas que elas fizeram desta seleção. ❤

Diskmusa

priscilaMinibio:

Priscila Merizzio é curitibana. Escreveu dois livros de poemas: Minimoabismo (ed. Patuá, 2014), semifinalista no Prêmio Oceanos 2015 e Ardiduras (ed. 7Letras, 2016). É idealizadora e coordenadora do projeto Pulmões Versos. Faz mestrado em Letras na Universidade Tecnológica Federal do Paraná.

POEMAS:

Quero destituir o medo

Esqueço que ele é uma farinha

Ladeando as artérias

Borrando os olhos, criando

Sombras e pontos-cegos

Está na água que bebo

No chilrear das aves de domingo

Está intrínseco em tudo

Exceto nas florestas.

O medo tem medo das florestas,

Pois nas copas das árvores

Está a mão de Deus

*

Meu coração, se fosse mulher seria
Daquelas que giram as bolsas nas vielas e têm o rosto
Cheio de vincos, os dentes desgastados de cigarro
Um mau hálito de tanto sorrir sentindo a úlcera pinçar

*

O sol rói como rato os bebês etiópicos
As mães choram sob seus
Corpinhos sem…

View original post 799 more words

Advertisements

Por Priscila Merizzio

 

michês queimam crack nas araucárias

caninos se retorcem no doce da confeitaria

a fina dor da retrátil gengiva

– alucina

 

sobrevive a cachorro-quente de coração de galinha

faz um coque com o veneno da garoa

a cabeça do Cavalo senil não chora: saliva

 

curitibanos golfam a neve de 75

no chafariz, anjos digladiam-se no Atletiba

 

flores de ipê-amarelo

esmagadas nas Ruínas

 

os gigantes da Praça dos Pelados

forram os mocassins com a Tribuna de ontem

(o gay foi assassinado)

 

– meninos de rua bebem cicuta

[Quando surgiu o convite para participar da Bienal Internacional de Curitiba 2013, a autora escreveu esse poema, Au revoir, velha Curitiba,  especialmente para o evento. O curador de Literatura da bienal, Ricardo Corona, estabeleceu alguns critérios aos poetas convidados: 1) tinha que ser Poesia; 2) os textos tinham que ter conteúdos referentes a Curitiba ;3) terem, no máximo 15 linhas. O único escritor que participou com prosa foi Dalton Trevisan]

Câncer. Signo mal afamado entre aqueles que pensam que entendem de Astrologia. Comumente chamado de chorão, pegajoso, ciumento, apegado à mãe, banana. Câncer é regido pela Lua, essa deusa, admirada e respeitada por várias tribos xamãs. Paixão avassaladora de Júpiter. Feminino, úmido, cardinal. Misterioso, bruxo, intuitivo, sombrio. Noturno, místico. Ponte entre a realidade e o onírico. É o herói trágico, o pathos, o ator grego ensinando aos mortais sobre a emoção. Parceiro íntimo de Escorpião, outro signo de água. “São análogos”, disse-me João Acuio. Peixes, apesar de ser do mesmo elemento do caranguejo e do ferrão, é outra viagem. Câncer tem o lado maternal, não necessariamente voltado às crianças e à própria família. Pode ser também à fertilidade de ideias, pensamentos, desejos. O lado infantil, uma birra diante de alguém inconveniente. As chantagens, formas dissimuladas de cobrar honestidade dos outros. Câncer é sincero com sua essência, de seus antepassados. Guardião das memórias, arquivista indispensável na roda que gira a sociedade. Como autoconhecer-se sem reconhecer o que já foi? O ser humano é feito de marcas, traumas, fatos que irromperam no que hoje são. Câncer sabe. Uns são Maria Madalena, reunindo os filhos metade-homens, metade-sagrados em torno da mesa. Outros são boêmios, colecionando suas garrafas de cachaça e seus amores em torno da cama com dossel rendado e lençol decorado por pérolas. Pensem em Gustav Klimt, transitando entre várias tabacarias, sorvendo absinto, tendo dezenas de filhos com várias prostitutas e pintando mulheres nuas em cenários fantasmagóricos, oníricos, fugidios, românticos, surreais. Klimt era cancerianíssimo. João Acuio, sempre que se refere ao signo de Câncer, fala do mangue, este lugar escuro, úmido, gelado, lamacento, que poucas pessoas gostam de entrar em contato. Pouco se sabe das atividades debaixo do manguezal. Se experimentassem trazerem à tona os segredos do mangue, descobrindo sua escuridão como alguém que tira um pesado cobertor de um corpo aparentemente putrefato, ficariam espantados com a quantidade de vida e movimentos frenéticos de espécies de animais exóticos, minúsculos e letais. Animais encantadores em seus modos melancólicos e obscuros de ser. Ovas para todos os lados. Vermes, borboletas, serpentes, aranhas e crustáceos trabalhando em comunhão. Cristais e pedras preciosas. Ostras enfeitiçadas. Câncer é silencioso, discreto, subestimado. Melhor assim. A criatividade fértil do caranguejo seria deturpada por esse mundo violento. Courtney Love, outra canceriana, canta que “this world is a whore”. É por isso que Câncer protege sua alma com aquela carapaça dura. Um golpe leviano em seus sentimentos mais vivos pode causar danos irreversíveis na mágica canceriana. Vejam Frida Kahlo, tão forte dentro de sua aguda vulnerabilidade poética.

Para o Homem Vestido de Peixe-Boi era imprescindível matar a fome de sua irrefreável imaginação. Na primeira comunhão de sua irmã, sua curiosidade incoercível fez com que se levantasse da bancada, interrompesse o sermão do padre, erguendo sua batina com arrojo, para perguntar àquele ser metade-homem-metade-deus, se ele usava cueca ou calcinha. Um dia, estava no clube com seus pais e, para seu espanto, viu um rapaz de cabelos longos e encaracolados. Sem titubear, perguntou-lhe se era um homem ou uma mulher. Ao saber que era mesmo um homem, recomendou que fosse cortar as madeixas com seu tio, um notável cabeleireiro. Ele preferia arreliar os outros com suas perguntas impertinentes a transcorrer madrugadas com a mente turbada. Em tardes enfadonhas, ele e sua irmã vestiam-se como maltrapilhos e passavam o dia fingindo-se de moleques de rua, pedindo trocadinhos aos passantes. O Homem Vestido de Peixe-Boi sempre quis saber como era estar na pele dos outros. Às vezes, desviava-se do caminho de volta da escola para seguir alguém que havia despertado sua atenção. Para desespero de seus pais, sumiu em uma terça-feira qualquer, e eles só tiveram notícias suas à noitinha do dia seguinte, por um caminhoneiro que encontrou o Homem Vestido de Peixe-Boi dormindo tranquilo na rabeta de seu caminhão. Aprazia-se em criar os próprios jogos de entretenimento. Vivia galhofando das pessoas do condomínio em que morava, colocando gravadores escondidos na portaria para escutar as conversas dos porteiros;  esgueirava-se na garagem para sujar com ovos apodrecidos os assentos das motos estacionadas; do alto de sua janela, em dia de festa de algum vizinho, jogava baldes de água nos convidados que entravam no prédio; despejava leite de vaca dentro de camisinhas, assoprava-as até se inflarem como uma bexiga, deixava-as no tapete da porta do síndico, tocava a campainha e corria para se esconder; promovia espetáculos teatrais aos moradores e também organizava brincadeiras de torta-na-cara entre a garotada. Já adulto, tinha a insistente mania de imaginar como seriam as pessoas sem roupas. Ele não tinha critério de escolha. Bastava acomodar-se em algum lugar e logo sua imaginação esmiuçava como seriam pelados a tia da limpeza, o professor eloquente, a apresentadora do telejornal, o árbitro de futebol, o guardião noturno, a cantora de MPB do boteco, o cobrador de ônibus, a pipoqueira da praça, o garçom do restaurante. Quando tinha antipatia por alguém, o Homem Vestido de Peixe-Boi atribuía-lhe imundície à higiene pessoal, dotando os homens de pelos pubianos emaranhados de craca e as mulheres, de calcinhas carimbadas com corrimento.

Naquela sexta-feira, indiferente à agitação costumeira que antecedia os finais de semana entre seus colegas de trabalho, o Homem Vestido de Peixe-Boi observava um pedreiro que caminhava perigosamente em um andaime do edifício vizinho. O pedreiro, muito familiarizado com a altura, manejava sacos pesados de cimento e cantarolava uma música qualquer, com um cigarro entre os lábios. O Homem Vestido de Peixe-Boi ficou fascinado com a acrobacia indiana do pedreiro e, enquanto atinava que o emprego dele devia ser bem mais divertido que o seu, a secretária interrompeu seus pensamentos para interpelar que fosse ao happy hour da empresa após o expediente. Quando ela vinha puxar conversa, ele não tirava os olhos da sua pinta,  perto da boca. Junto com a goma de mascar que ela mascava o dia inteiro, a pinta se movia para cima e para baixo, verde, verdíssima. Tudo indicava que a secretária havia tatuado a tal pinta, até porque usava seus cabelos loiros oxigenados, como os de Marilyn Monroe. Ele recusou o convite, alegando ter outro compromisso. Assim que a secretária virou as costas, imaginou-a usando uma calcinha cor da pele, sutiãs com enchimento e meia-calça bege, rasgada na altura das coxas. Quando o escritório foi ficando vazio, o Homem Vestido de Peixe-Boi concentrou-se em um de seus jogos favoritos nas noites de sexta-feira. Ele discava um número de telefone a esmo e, improvisadamente, puxava conversa com a pessoa que atendia. Nessa noite, quem atendeu foi uma senhora muito simpática, que revelou sem receios o endereço da festa para a qual se dirigia. Ela convidou-o deliberadamente e sugeriu que ele levasse um prato de sobremesa. O Homem Vestido de Peixe-boi sentiu esquisita familiaridade naquela senhora e disse-lhe que chegaria ao local indicado em torno das onze badaladas do relógio de cuco, Vestido de Peixe-Boi, para que ela o reconhecesse. E para economizar dinheiro, ele preparou por conta uma enorme travessa de crème brulée cru e malemolente. Whatahell! Foi muito difícil chegar ao local indicado, parecia que ele estava no labirinto do Minotauro. A festa acontecia em uma grande casa de chácara, iluminada por projéteis de luzes de neon fosforescentes e adornada com esculturas de leões desdentados e dourados nos muros da entrada. O estacionamento estava lotado de caminhonetes importadas, carros antigos, carrinhos de bebês e coleção de Pogobol colorido. Com a travessa de crème brulée a tiracolo, o Homem Vestido de Peixe-Boi atravessou o jardim, esbarrando em algumas pessoas vestidas como os hippies do Festival de Woodstock. Elas acendiam um baseado no outro e riam alegremente das coisas mais pueris. Também se serviam de um ponche de frutas cítricas, temperado com claviceps purpúrea e brindavam a Era de Aquário. Antes de se afastar por completo desse grupo, ele viu alguns casais fazendo amor na grama, com muita paz. À medida que se aproximava da casa, o Homem Vestido de Peixe-Boi notou muitas coroas de flores feitas de camélias, costuradas entre si por luzes de Natal e bicicletas de spinning espalhadas por todo o jardim. A casa estava iluminada por velas gigantes e tomada pelo som ensurdecedor de uma exótica música, com batidas eletrônicas mescladas por cítaras, órgãos de igreja e canto árabe. Tipos muitos espalhafatosos transitavam pelo hall de entrada: góticos de cenho franzido trazendo corvos empoleirados em seus ombros, homens usando tangas com fio dental de pérolas e mulheres fantasiadas de Maria Antonieta. Uma moça muito formosa, com roupa de anjo e pequenas asinhas ruflando em seus tornozelos, puxou o Homem Vestido de Peixe-boi pela mão, conduzindo-o velozmente até um cômodo apinhado de pessoas que dançavam balé em torno de um enorme caixão pintado de branco.  Ele estava em um velório high tech. Como ele e a senhora haviam combinado ao telefone que, para que ela o reconhecesse, ele iria Vestido de Peixe-boi, ficou um tempo parado sob o vão da porta, sem entrar no cômodo. Não havia mais ninguém Vestido de Peixe-Boi, ela facilmente o reconheceria. Idealizou que, quando a senhora se aproximasse, em vez de ralhar com ela por tê-lo convidado a uma festa, sem revelar que, na realidade, se tratava de um velório high tech, ele iria enchê-la de embevecidos beijinhos, pois há muito que queria participar de algum velório assim. Ficou deslumbrado quando leu em algum lugar que eles são muito populares no estreito de Gibraltar. A senhora não aparecia e Ele, impaciente com tanta espera, mandou-a às favas. Decidiu aproximar-se do caixão para ver quem era o morto. Desviou-se com cuidado das pessoas-bailarinas e viu Elvis Presley estendido no caixão. O Homem Vestido de Peixe-Boi ficou embatucado de satisfação. Aquela, com certeza, era a melhor sexta-feira de sua vida. Contemplou o corpo de Elvis Presley, imaginando como seria pelado. Muito provável que fosse flácido por tanta bebedeira. Ele havia passado mentalmente pelos pés, tornozelos, parte de trás das pernas e estava detalhando sua genitália, quando  Elvis Presley abriu os olhos e o fitou. O Rei sentou-se no caixão, espreguiçou-se e pediu para que o Homem Vestido de Peixe-Boi o ajudasse a sair de lá. Ia fazer um show. As pessoas da festa pareciam não estar espantadas com a cena. E enquanto o Rei cantava Kiss me quick, o Homem Vestido de Peixe-Boi conspurcou o twist, bradando enlouquecido Elvis não morreu, Elvis não morreu, Elvis não morreu!

*Conto escrito especialmente ao Projeto Pós-Horóscopo, organizado pelo astrólogo, psicólogo, escritor e poeta, João Acuio. A proposta do projeto, aos convidados, foi para que escrevêssemos textos, tirássemos fotos, desenhássemos, etc e publicássemos o material no mesmo dia, no site Saturnália – Astrologia & Cidade (www.saturnalia.com.br). Este conto foi inspirado na Lua em Aquário e, também, nos concretistas brasileiros. 

Imagem

o inventor observava uma nesga de nuvem branca que despontava no imenso céu azul. Ela parecia TÃO inofensiva como uma ovelha branca filhote. Ele não se deixava enganar, pois sabia que dessa pequenina nuvem brotariam imensos algodoeiros celestes que forrariam o céu. A cor que, outrora branca, se tornaria acinzentada e cuspiria flechas-relâmpagos, famosas por estuprar árvores, postes de luz, penetrar com terror em senhoras viúvas e donzelas puras. As nuvens ficariam grávidas de THOOOOR e derrubariam agressivamente seus líquidos amnióticos sobre a cabeça da HUMANIDADE que, lá embaixo, abriria seu guarda-chuva sem atinar que estava se protegendo de possíveis rebentares de águas carregadas de anomalias cromossomáticas. o inventor rompeu sozinho uma grande risada a vislumbrar que da placenta das nuvens grávidas nasceriam fetos de girassóis que dariam alegria e graça às clínicas de reabilitação escondidas no meio do mato. Em um curto-circuito eletrizante o inventor se desligou do céu e passou a observar quinze palmos abaixo da janela de seu apartamento. Percebeu uma menininha contando mais ou menos três anos de idade, caminhando apressada com suas pernas curtíssimas, envoltas por uma calça de moletom roxa e minúsculas galochas vermelhas. o inventor imaginou que tipo de adulta seria aquela menininha e se algum dia ela saberia que foi observada por ele,  recente ganhador do Nobel da Paz, com seu spray restaurador da camada de ozônio, misturado como uma KryptoNITA aos mesmos produtos que antes a destruíam. É verdade que ele se sentia bastante envaidecido com essa invenção que mudou o rumo da HUMANIDADE — no fundo tinha uma grande necessidade de agradar ao próximo e também de provar a si mesmo que era indispensável à vida DOS OUTROS. Desde sempre, o inventor tinha uma imaginação supostamente mais fértil do que mulheres com ancas de parideiras e se dedicava a ***idealizar*** criações que pudessem favorecer as pessoas à sua volta. De uma popularidade ímpar, antes do Nobel da Paz, já era muito conhecido por outras invenções: pulverizador ecológico de cocô de cães e gatos; óculos especiais para as donas de casa cortar cebolas sem agredir a vista; creme mantenedor de maquiagem durante 8 horas, que fez muito sucesso na indústria da moda e do cinema; goma de mascar restauradora de obturações. Criou também um CD de música muda, para as pessoas escutarem o silêncio completo em meio à balbúrdia de transportes COLETIVOS. O Álbum do Silêncio foi considerado pela revista Rolling Stone como a coletânea de maior importância nos últimos cem anos, além de ter recebido vários prêmios musicais importantes, inclusive o Grammy de melhor letra de música. Causou escândalo na Feira Internacional de Exibição de Invenções, Novas Técnicas e Produtos, em Genebra, expondo a original câmara hiperbárica com design de última ponta. No interior da câmara havia uma chaise long de couro italiano, máquina de café expresso, cama king size com lençóis espanhóis e travesseiros feitos de penas de ganso, iluminação projetada e um minicinema. o inventor ignorou formalmente o rótulo de genialidade que tentaram infundir nele e recusou todos os convites para ser representante de ONG. Tinha um estranho repúdio a qualquer organização, porque acreditava firmemente que elas viviam de esquemas políticos mafiosos. Quase teve cassados seus DIREITOS como cidadão, ao declarar que a ideia de igualdade nos votos é um engodo, que mais favorece os corruptos do que beneficia a população. Durante meses, FOI DIFAMADO nos maiores jornais do mundo, quando confessou não acompanhar qualquer noticiário. Ligava a televisão apenas para assistir a programas de auditório, pois eles é que realmente mostram a realidade de qualquer país. Constantemente era flagrado pelas ruas rindo na companhia de garis, travestis, batedores de carteiras e muambeiros. o inventor se recusava a andar de carro e ganhou inimizades gratuitas consideráveis, quando declarou PUBLICAmente que preferia antes receber em sua casa inventores de armas nucleares a inventores de carros. Quase apanhou na Marcha das Vadias quando disse que o conceito de feminismo é fachada, que a SOCIEDADE ainda será dirigida por homens durante muito tempo. Sob bolsadas e vaias, advertiu-lhes que embora usassem roupas curtíssimas e dissessem o que lhes desse na veneta, ainda seriam internamente classificadas entre “para casar” e “para trepar”. Conquistas como a abolição de revistas de mulheres nuas eram apenas jarrões de flores frescas em uma sala empoeirada e destruída. Ultimamente quase todas as opiniões do inventor estavam sendo MAL INTERPRETADAS e ele estava inquieto com isso, embora não demonstrasse nem sob decreto. Então ele se desligou das pessoas que estavam por perto para melhor ***idealizar*** um projeto que há muito estava engavetado e que seria de grande valia para a HUMANIDADE: a ressurreição de Leonardo da Vinci.

IMG00622_

                                         (Imagem do céu de Curitiba, 2012/ Por Priscila Merizzio)

*Conto escrito especialmente ao Projeto Pós-Horóscopo, organizado pelo astrólogo, psicólogo, escritor e poeta, João Acuio. A proposta do projeto, aos convidados, foi para que escrevêssemos textos, tirássemos fotos, desenhássemos, etc e publicássemos o material no mesmo dia, no site Saturnália – Astrologia & Cidade (www.saturnalia.com.br). Este conto foi inspirado na Lua em Aquário e, também, nos concretistas brasileiros. 

 

I

Havia debaixo do colchão de sua cama um facão para cortar pela metade a dor e os sonhos. Julgava uma inépcia pessoas que se refugiavam em fantasias e escutava com lassidão seus discursos. Carregava consigo uma assepsia de emoções que o deixava embotado diante de sentimentos profundos. Foi uma criança sisuda e pautada nas farmacopeias que os mais velhos ensinavam. Considerava frugais as brincadeiras das outras crianças, optando quase sempre pela aspereza da solidão. Cresceu com os ossos dos joelhos ensimesmados e não houve especialista que conseguisse curar a dor lancinante em dias de tempestades. Embora ganisse a cada trovoada, deixava que a natureza se ocupasse de ficar úmida e trincava os dentes com força para não derrubar lágrima sequer. Tão logo alcançou maioridade, partiu de casa em busca de independência. Ambicionava ser um homem rico e também preencher a arcada dentária com ouro trazido de minérios negreiros. Sua personalidade compenetrada lhe rendeu um emprego promissor em uma importante madeireira. Tinha brios luciferianos e nas parcas correspondências que trocava com a mãe não se queixava de saudades, doenças ou escassez de comida, como costumavam fazer os outros rapazes de sua idade. A madeireira foi seu único emprego. Começou como estagiário e aposentou-se como sócio majoritário, exportando pinus à Europa e, para espanto dos colegas, também para as Índias. Saía com mulheres aceitáveis, mas nada extraordinárias. Permitir-se ao extraordinário era fado dos românticos. Jamais armazenou velas para gastar com defuntos. Permitia-se ternura e superstição apenas com seus gatos, que não lhe exigiam cuidados demasiados.

II

Havia algumas raras situações em que ele cruzava o olhar com mulheres que o deixavam em estado de Lua Cheia. Ele tinha pavor do efeito hipnótico e destemperado que elas produziam em seu comportamento. Após sentir o perfume de Cleópatra que emanava do tufo de pelos no meio de suas pernas e de bebericar seus orgasmos de ambrosia, voltava-lhe impiedosa a dor nos joelhos. Ele urrava quase esfarelando os dentes entre as mandíbulas, mesmo que lá fora fizesse um sol de latejar as têmporas. As enxurradas de suor daquelas mulheres lhe valiam mais do que três mil tempestades e não havia nada que amainasse sua dor. Concluía que elas eram ardis feiticeiras, com seus seios de Medeia e gracejos de fogueira, distribuindo sorrisos como quem despeja moedas estreladas em danças ciganas e mesmerizantes. Após o encontro com essas mulheres, caía em si e rechaçava a si mesmo por ter se permitido enveredar nas ratoeiras do desejo descomedido. Punha-se então a ruminar saídas mentais e estratégicas e empunhava tochas gélidas de racionalidade que o livravam do labirinto das câmaras dos átrios e ventrículos daquele monstro sentimental que pulsava na cavidade de seu tórax. Ele não concebia a ideia de ter um coração, apenas um cérebro. Seguinte ao pequeno descarrilamento emocional, retornava a seus afazeres, interando-se em cálculos e bebericando conhaque em negociações com outros poderosos. Voltava a esvaziar as necessidades de homem em bordéis com gorjetas mesquinhas e não beijava a boca das putas. Substituiu os dentes naturais por dentes de ouro egípcio.

III

Embora tentasse fugir dessas raras mulheres feiticeiras, houve uma delas que fatalmente o envolveu em um véu de brumas aquáticas. Quando deu por si, estava se deitando com ela em meio a incêndios oceânicos que repartiam Netuno em dois e ásperos pedregulhos vigiados por cascavéis que avisavam com seus guizos plutônicos que, frutos férteis e lunáticos, estavam quase caídos dos pés. A feiticeira estendia seu efeito desagradável também sobre seus gatos, que em noites enluaradas estranhamente tomavam formas de enormes lobos, uivando insaciáveis. Os gatos, transmutados em lobos, sumiam na escuridão e traziam consigo, na manhã do dia seguinte, embutidas dolorosamente em seus membros ainda intumescidos, delicadas fêmeas andorinhas. Ele ficava horrorizado com tamanho espetáculo e esguichava água fria para que seus gatos deixassem de ser lobos e as fêmeas partissem, incumbidas de bicarem sozinhas suas feridas. Não se solidarizava com a dor alheia. Ademais, ele estava ranzinza a maior parte do tempo. Ora porque a feiticeira não estava por perto, ora porque ela se ausentava. Ansiava em ter sua sobriedade de volta, embora soubesse que o preço a pagar seria alto. Teria de expelir todo o carmim de suas paredes para revesti-las novamente com o cinza dos bordéis e dos números certeiros de seu livro de contas. Além disso, os gatos pareciam conspirar contra ele quando não transfigurados em lobos. Quando ele começava com suas especulações taciturnas sobre as implicações negativas acerca da feiticeira, os bichanos bocejavam modorrentos. Desde que haviam experimentado os presságios mágicos da Lua Cheia eles observavam sua soturnidade com audaz desprezo e abençoavam a entrada daquela mulher bruxa em suas vidas.

IV

Mal ele sabia que os gatos haviam desenvolvido o desagradável hábito de espionar suas noites de volúpia com a feiticeira, que dominava a arte do amor e entregava despudorada cada nuance de seu corpo quente. Ela engatinhava pelo quarto como uma pantera e colhia seu sêmen em uma taça de ouro.  Quando ela fazia isso, os gatos que estavam espionando pelo vão da porta, ficavam de pelos eriçados e salivavam inebriados. Para ele, aquelas foram noites guiadas por um deus ébrio de Vênus e nada daquilo lhe soava linear. A passagem arrastada do tempo o deixava Saturno. Decidiu que era a hora de findar aquela desgraça. Após uma noite ardente, ele acordou e sentiu falta da feiticeira ao seu lado. Foi procurá-la pela casa e flagrou-a dando seu sêmen de beber aos gatos. Eles lambiam a taça de ouro e ameaçavam transformar-se em lobos. No lugar dos cabelos escuros e sedosos da mulher, brotaram-lhe serpentes que ondulavam sensualmente ameaçando o picar nos olhos para que ficasse cego. Ele começou a gritar apavorado, ordenando que Medusa fosse embora e que levasse com ela as serpentes e aqueles gatos-lobos repugnantes. E assim foi. Para disfarçar a sensação de perda ele iniciou uma criação de cabras. Elas talvez lhe pudessem render calmaria e algum trocado com o leite que produziam. Nutria uma raiva sombria daquela mulher que surgiu em sua vida para levar o que mais de precioso ele tinha: os gatos. E sua inconfessável presença de bruxa. A dor dos ossos do joelho se tornou violenta como uma maldição. Em vez de surgir em meio às tempestades, ela agora anunciava sua presença nas noites de Lua Cheia. Enquanto lobos uivavam ao longe, primeiro partiram-se as juntas e depois os ossos de seus joelhos. Os dentes de ouro de sua boca derreteram-se como argamassa, grudando seus beiços definitivamente. Ele morreu de hipotermia, julgando escutar lobos afônicos uivando lá longe, enquanto suas cabras pastavam tranquilamente na colina. Jamais derrubou lágrima sequer.

*Conto escrito especialmente ao Projeto Pós-Horóscopo, organizado pelo astrólogo e escritor João Acuio. A proposta do projeto, aos convidados, foi para que escrevêssemos textos, tirássemos fotos, desenhássemos, etc e publicássemos o material no mesmo dia, no site Saturnália – Astrologia & Cidade (www.saturnalia.com.br). Este conto foi inspirado na Lua em Capricórnio e, também, na linguagem machadiana. 

I

O detetive recebeu um chamado às quatro e meia da manhã. Era o líder dos pescadores da praia local dizendo sem rodeios para ele se arrumar depressa e chegar até o forte antes da polícia e dos jornalistas. O homem sequer deu tempo para o detetive argumentar, adiantou que não daria explicações por telefone e desligou. O detetive, embora acostumado com ligações desse teor, ficou preocupado. Há muitos anos que nenhum crime grave acontecia ali, no máximo homens e mulheres se amando na areia em horários inconvenientes ou algum moleque de rua tentando furtar os pertences de banhistas distraídos. Pelo tom de urgência na voz do líder dos pescadores algo muito sério acontecera. O detetive vestiu-se o mais rápido que pôde e enquanto o elevador descia até a garagem retirou as remelas dos olhos criando mil teorias sobre o que poderia estar acontecendo.

***

Chegando à praia o detetive precisou desviar-se do aglomerado feito pelas mulheres dos pescadores em torno do que parecia ser um corpo. Ao esquivar-se das pessoas, notou que os homens estavam silenciosos e contemplativos e as mulheres seguravam velas e rezavam aos orixás e santos de toda espécie. Ele reconheceu o líder dos pescadores e antes que abrisse a boca, o homem ordenou-lhe com os olhos para que olhasse para o chão. O detetive obedeceu e viu estendido na areia o corpo da mulher mais bela que ele provavelmente já contemplara. Ela absolutamente não era um ser humano. Os cabelos pareciam enormes e sedosas algas marinhas avermelhadas estendidas e esvoaçantes na areia. No lugar dos pelos pubianos havia um delicado tufo de algas da mesma cor. Sua pele era brilhante e escamosa, sobretudo na região das nádegas, ventre e dos fartos seios. Emanava um cheiro convidativo que lhe fazia salivar, sentindo na língua o gosto do orgasmo feminino. Gosto de Ambrosia, a iguaria dos deuses, constatou. Antes que amanhecesse definitivamente e o burburinho atraísse transeuntes curiosos o detetive determinou ao líder dos pescadores que mantivesse os moradores discretos em relação ao corpo da mulher. Contatou um velho amigo, que outrora trabalhara no setor de inteligência da polícia alemã e desde que saíra, mantinha um secreto laboratório onde fazia, dentre outras coisas, experimentos com alquimias dos elementais, estudos em originais de livros mágicos antiquíssimos, tratados astrológicos e de boticaria e cultivo de ervas medicinais da Amazônia. O velho amigo surgiu com um rabecão importado da Itália e habilidosamente recolheu o corpo da mulher sem demonstrar pingo de espanto. Chegando ao laboratório estendeu o corpo dela sobre a mesa de azulejo e focou todas as luzes brancas no local. Nem cogitou abri-la, pois era evidente que o detetive não o deixaria profanar a linda mulher. O silêncio era tanto que se podia ouvir o barulho da lâmpada elétrica falhando no outro cômodo. Aquele cheiro de orgasmo feminino tomou conta de todo o lugar, como se lá acontecesse uma orgia de virgens celestes. O velho amigo pediu licença e após um tempo razoável, retornou com uma caixa prateada e fechada com combinação digital. São livros antigos com informações que talvez o interessemVou manejá-los com luvas cirúrgicas e peço-lhe que não se aproxime muito, pois as folhas são feitas de papiros delicados, disse ele. Havia várias ilustrações exóticas com descrições em uma língua de desenho muito curioso. No rodapé de muitas páginas havia também anotações feitas à mão. Nas páginas antigas, várias figuras coloridas de estranhas criaturas marinhas: polvos com centenas de tentáculos, golfinhos de duas cabeças, baleias douradas, cardumes de peixes em formato de bexigas transparentes, medusas da lua, najas aquáticas, gatos persas tentando devorar ratazanas com nadadeiras imensas e outras imagens esplêndidas. Havia também uma cidade submersa muito semelhante às antigas ruínas da Grécia Antiga e do Antigo Egito e, nadando entre elas, figuras belíssimas como a mulher encontrada na praia, homens e mulheres das mais diversas idades. Havia, ainda, o desenho do que parecia ser uma aldeia arborizada e florida. Brincavam no gramado da aldeia doze meninas em fabulosos vestidos de princesas e sobre a cabeça de cada uma delas, brilhava o que parecia ser o símbolo do zodíaco. O velho amigo explicou ao detetive que as figuras marinhas tinham ligação direta com o corpo da mulher encontrado na praia, que pouquíssimas pessoas do mundo sabiam da existência de cidades submersas – cerca de oito ou nove – e havia um voto de silêncio entre elas. Resolveu contar o segredo ao detetive em nome da velha amizade. Além disso, conhecia bem o seu temperamento e sabia que ele não sossegaria até desvendar o mistério e poderia estragar tudo levando informações a pessoas do setor de investigação da polícia. O corpo da mulher era, afinal de contas, prova irrefutável de que a lenda não era lenda, mas uma história real. Contou ao detetive que aqueles desenhos representavam humanos que morreram no mar e depois foram recolhidos pelos guardiões das cidades oceânicas. Explicou que não eram todas as pessoas que morriam no mar que iam até as cidades. Os guardiões tinham um severo critério de escolha. Recolhiam apenas suicidas.

II

Já era quase meio-dia quando o detetive saiu da casa do velho amigo. Decidiu que não ia ao escritório naquele dia. Desligou o celular. Nem se deu ao trabalho de inventar alguma desculpa esfarrapada. Que se fodessem todos. Dirigiu vagarosamente pelas ruas escutando repetidamente e no último volume a Valquíria, de Wagner. A passagem de seu veículo ao som da música deixou algumas pessoas da rua estupefatas e outras maravilhadas. Uma mulher largou as sacolas de compras no chão e dançou na calçada do supermercado. O detetive, de certa forma, contagiava as criaturas com seu estado de assombro. Estacionou perto da pedreira da praia, trocou Wagner por Verdi, sentou-se sobre uma grande pedra e começou a pensar em sua vida. Até onde sabia, não tinha filhos. Nem os queria. Como quase todo homem de meia-idade tinha em seu passado uma ex-mulher com quem viveu por alguns anos. Depois da separação teve uma coleção de namoradas. Entregou toda a sua vida ao trabalho, investigando crimes absurdos e desvendando mistérios que poucos seriam capazes de descobrir. Desde pequeno sentia-se deslocado entre as pessoas e cresceu dentro de uma redoma que o impedia de desfrutar das coisas simples da vida. Não nutria esperanças de que seu país fosse melhorar de fato e também desacreditava na tal evolução da humanidade que muitos apregoavam. Para ele, o homem havia conquistado apenas evolução tecnológica e médica. Moralmente, continuava primitivo como seus irmãos das cavernas. Tinha quarenta e poucos anos. Novo ainda, mas sentindo-se tão velho. Achava que os anos vindouros de sua existência eram de poucas esperanças. Pensou em suicídio várias vezes e mudou de ideia em todas elas, sem saber por quê. A conversa com seu velho amigo despertou esse antigo desejo de dar cabo de si. E mais: tornou-a atraente. Uma coisa era suicidar e dissipar a própria existência por completo. Outra era suicidar e ter a possibilidade real de uma nova vida, no fundo do oceano, em meio a criaturas fantásticas, selvagens e belas. Seu testamento já estava pronto há anos. Deixaria tudo o que tinha para uma fundação de confiança investir em um sistema para controlar a seca do Nordeste brasileiro. Inclusive o dinheiro da venda de seu carro e da moto estacionada na garagem. Soava engraçado ao detetive a preocupação com seus bens e investimentos. Os dissabores realmente pesam apenas aos que estão vivos. Se bem que ele teria outra vida,  felizmente, muito distinta da que já havia experimentado até então. Voltou para casa e esperou o sol se recolher para executar seu plano. Enquanto isso, arrumou suas coisas como quem se prepara para fazer uma longa viagem. Jogou os alimentos perecíveis no lixo do corredor, estendeu todas as suas roupas sobre a cama e deixou um bilhete dizendo que elas pertenciam aos porteiros do prédio. Deixou outro bilhete avisando que o dinheiro da venda dos móveis e quadros também seria destinado à mesma fundação das causas nordestinas. Perto da meia-noite chamou um táxi e voltou à pedreira da praia, que estava vazia. Tirou as roupas. Queria morrer nu. Antes de tomar as pílulas de diversas marcas de calmantes que tinha consigo, o detetive olhou para o céu. Estrelas brilhavam e a lua minguava como uma grávida após alguns dias de parto. Uma repentina vontade de chorar invadiu sua alma. Era um adeus a todos os seus fracassos. Como uma criança, o detetive ajoelhou-se e chorou baixinho enquanto engolia com vinho branco seco porções de calmante. Atirou-se da pedra mais alta em direção ao mar gelado. Não sentia medo. A água jogou seu corpo de um lado para o outro e ele deixou-se levar. Engasgou-se à certa altura e no meio de um acesso de tosse, foi perdendo a consciência, substituída pela vaga sensação de ser sugado novamente ao útero da mãe. A água do mar assemelhava-se ao líquido amniótico e antes que ele apagasse por completo sentiu-se atravessando um pórtico parecido com uma grande vagina em parto normal. Desaprendeu a respirar e dormiu profundamente.

III

O detetive acordou dentro de uma gruta no fundo do mar. Ao seu lado sorriam crianças quadrigêmeas. Elas estavam cercadas por um grupo de peixes-espada. O local era adornado com pérolas, ostras e joias preciosas. Ele sorriu. Quando olhou para seu passado só conseguiu se lembrar das coisas alegres de sua vida. Por uns instantes pensou que talvez não tivesse valido a pena suicidar-se. Sua vida teve coisas tão agradáveis e ele, por alguma razão, não conseguira olhar para elas. Mas isso não tinha mais importância. Agora era habitante de uma cidade oceânica e certamente haveria de conhecer coisas surpreendentes. Uma das crianças desejou-lhe boas vindas e disse-lhe que vivenciasse cada experiência e não se preocupasse, pois a convivência entre todos era harmônica e conflito algum amargava os corações das criaturas marinhas. Todos se gostavam, tinham alimentos ao alcance, não havia causa alguma por que lutar. Ninguém sentia frio ou calor. Se ele quisesse ficar acordado para sempre isso seria permitido e se ele quisesse adormecer teria os mais belos sonhos. A paz era completa, um eterno samádi. Os habitantes tinham livre-arbítrio para fazer o que quisessem e as escolhas feitas trariam felicidade e contentamento. Não havia certo e errado. Havia apenas uma opção perigosa. A criança aconselhou o detetive a jamais mirar-se no espelho. Não porque era proibido, mas porque as consequências seriam imprevisíveis. A única coisa nociva em meio a tanta paz eram os espelhos. Antes de eles existirem os homens precisavam aproximar-se da água para olhar suas formas físicas. Depois que um rapaz chamado Narciso morreu contemplando o próprio rosto, um homem de índole muito perversa percebeu que se conseguisse criar um instrumento semelhante ao poder de reflexo da água teria uma arma das mais temerárias. Ele descobriu que esse objeto deturpado da sabedoria aquática faria as pessoas se admirar ou se criticar em excesso a ponto de esquecer as coisas fundamentais da vida. Os espelhos despertariam sorrateiramente o pior que havia dentro dos indivíduos sem que eles percebessem isso. Eles destruiriam uns aos outros e sequer desconfiariam dos espelhos. A outra criança disse ao detetive para respeitar esse conselho. A menos que quisesse seguir os passos da bela mulher que encontrou na praia. Que na verdade estava fingindo-se de morta o tempo todo. E naquele exato instante comia os rins do velho amigo do detetive.